“Ele sempre foi muito musical, desde bebê. Foi no colégio Gentil que
me chamaram atenção para essa habilidade: 'Ele tem ouvido absoluto, deve
procurar ensino musical’, foi o que os professores de música me disseram”. O
relato é de Cristina Berman, mãe de David Brandão Berman, de apenas 11 anos.
A lembrança se revela enquanto ela aguarda na cantina instalada no térreo do
Instituto Estadual Carlos Gomes pelo fim da aula de instrumento, a primeira
que o menino terá no dia, parte de uma rotina que se repete duas a três vezes
por semana.
Na sequência, David segue para a aula de teoria musical. "Ele
adora. Já estuda aqui há quatro anos. Começou como ouvinte, passou um ano
inteiro vendo se gostava ou não das aulas, depois fez a musicalização. Agora
vai para o terceiro ano de violino”, conta a mãe, orgulhosa.
Na sala de aula o pequeno David tem apenas a companhia da professora,
um piano colocado ao canto da sala de música e carteiras vazias. Quem vê o
menino ali, como que congelado, o olhar fixo, voltado ao alto, pode pensar
que há algo errado. Mas no segundo seguinte, o menino ajeita a postura,
encaixa já com certa familiaridade o instrumento ao corpo e começa a tirar as
primeiras notas do violino, enchendo o ambiente com uma melodia suave e
compassada.
Atenção especial nas aulas
A música sempre foi um divisor de águas na vida de David desde que
chegou ao Colégio Gentil. Depois que a família detectou o autismo, ainda aos
três anos, é ela a grande parceira e o grande amparo no esforço que tanto a
família como os professores têm feito para que o menino supere, passo a
passo, os obstáculos inerentes à sua condição especial.
“Ele sempre foi um aluno muito bom. E o curioso é que, apesar da lei
obrigar as escolas a terem um acompanhante nas salas onde haja alunos como
ele, muitas ainda se negam. Os pais é que acabam tendo de contratar esses
serviços, mesmo em escolas particulares. E aqui no Instituto Carlos Gomes
nunca tivemos esse problema. O próprio conservatório providenciou isso, logo
que ele entrou e detectaram sua necessidade”, conta a mãe.
A história de Cristina Berman e do pequeno David ilustra bem como a
necessidade de atenção especializada e cuidados com a educação especial e
inclusiva nas escolas são cruciais para que o Brasil consiga cumprir o que
determina a Constituição de 1988: garantir incondicionalmente o acesso
universal de todos os brasileiros ao ensino básico - incluindo também todos
aqueles que são potenciais alunos portadores de necessidades especiais.
Em resumo: sejam esses brasileiros cegos, surdos, mudos, cadeirantes,
autistas ou portadores de outras tantas necessidades, eles também merecem e
precisam ter assegurado o direito de acesso às escolas e a um ensino de
qualidade. Todos os estabelecimentos de ensino, em especial os públicos, devem
se adaptar para atender essas condicionantes, de modo a garantir o convívio
dos estudantes em turmas e estabelecimentos regulares – ao contrário do que
se fazia no passado, quando poucas escolas especializadas davam conta dessa
necessidade. Essa é uma premissa também firmada pela Lei de Diretrizes e
Bases da Educação (LDB).
Quando se refere ao direito dos brasileiros à Educação Básica – que
estabelece que ela deve ser garantida de forma obrigatória e gratuita a
todos, dos 4 aos 17 anos –, o artigo 208 da Constituição Federal diz que é
dever do Estado providenciar e ofertar atendimento educacional especializado
a pessoas com deficiência no sistema regular de ensino. A Lei Federal 13.146,
de 6 de julho de 2015, por seu turno, diz que todas as instituições de ensino
são obrigadas a manter turmas voltadas para esses públicos especiais.
No Pará, esse esforço se converte em números que apontam avanços: são
cerca de 630 os estabelecimentos de ensino que dispõem de recursos especiais
para atender esses alunos, além de 1,7 mil professores especializados em
educação especial e inclusiva – com atenção voltada tanto para alunos com
deficiências quanto para aqueles com altas habilidades e superdotação, bem
como para os que têm transtornos ligados ao autismo. E as matrículas
cresceram: em 2015, o Pará somou 10.824 alunos especiais matriculados em todo
seu território, com índice médio de 90% de suas necessidades atendidas. Vale
lembrar que em 2014 esse número era de pouco mais de sete mil (7.094). O
crescimento da procura pela educação especial do Estado foi de 52,6% em um
ano.
Mapa da inclusão - Obviamente, ainda há muito a avançar do que
está preconizado na Constituição para se garantir escolas e ensino a todos
esses estudantes – e não apenas no Pará, pois esse é um desafio a ser vencido
em todo o Brasil, onde o contingente de pessoas com necessidades especiais de
ensino que se encontram fora das escolas ainda é grande. Mas o Estado está
hoje entre os que mantém ações e políticas firmes voltadas para o alcance
dessa meta.
“Pedimos aos pais que têm filhos com necessidades especiais que
procurem as escolas mais próximas, ou aquelas com as quais se identifiquem
mais, e matriculem seus filhos. Muitas vezes há insegurança, a dúvida se seus
filhos serão bem atendidos. Mas não é necessário temor. Isso é tão importante
para eles como para as nossas escolas, que também se transformam com esse
contato”, ressalta Kamilla Vallinoto, professora especializada em educação
especial e inclusiva, que responde atualmente pela Coordenação de Educação
Especial (Coees) da Secretaria de Estado de Educação (Seduc).
A Coees é a instância da Seduc que trabalha na assessoria,
administração e acompanhamento de alunos com necessidades especiais ou
deficiências nas escolas da rede estadual. A coordenação ajuda os
estabelecimentos de ensino do estado a disseminar as chamadas salas de
recursos multifuncionais, que disponibilizam mobiliário e material pedagógico
específico para classes especiais – com a ajuda do Ministério da Educação
(MEC), a quem as escolas podem solicitar as instalações.
“O Estado está lutando há muito nesse processo de inclusão. Já
registramos muitos avanços e hoje até escolas particulares nos procuram
pedindo apoio. Solicitam ajuda de nossos profissionais da área, para, por
exemplo, estruturar espaços voltados para atendimento das pessoas com
Síndrome de Down”, pontua Kamilla, sobre a ação ligada ao Programa de
Formação e Assessoramento (Profass), do Núcleo de Avaliação Educacional
Especializada da Coees Seduc.
E o acompanhamento da Coordenação de Educação Especial vai além das
necessidades escolares da infância. Ele segue até a vida adulta, quando
alunos são encaminhados ao mercado de trabalho, por intemédio do Programa
Educacional de Inclusão Profissional (Proeimp), mantido pela Seduc para esse
alunado especial.
Muitas empresas também procuram o programa em busca de assessoria para
garantir vagas e aprimorar programas para carreiras de alunos oriundos da
educação especial. Agora o Pará se esforça também para ter um quadro mais
claro das necessidades de inclusão de alunos com necessidades de educação
especial em todo seu território. Através do programa Rios da Inclusão, fruto
de uma parceria firmada há dois anos com o Unicef, o Estado faz a contagem
desses alunos que ainda estão fora das escolas.
Resultados – “Aqui no conservatório meu filho conseguiu desenvolver principalmente
o aspecto do relacionamento com outras pessoas, a interação social, que é
onde ele mais precisa de apoio. Não tenho queixas. Noto pela história de meu
filho que o Estado tem se esforçado para atender esses alunos”, atesta
Cristina Berman, testemunha das vitórias do pequeno David, vividas dentro do
Instituto Carlos Gomes.
“Temos crescido juntos. Apanhamos muito no início, mas hoje já
conseguimos cuidar adequadamente desses alunos desde o momento em que tomamos
ciência de suas necessidades, além de estabelecer formas de avaliação e de
ensino diferenciadas”, pondera Valéria Dias, professora de música do
Instituto Carlos Gomes. Formada em Licenciatura em Música pela Universidade
do Estado do Pará (Uepa) e pós-graduada em Inclusão na Educação, ela é hoje a
"fiel escudeira" e mentora dos avanços do pequeno David.
“Ela está com ele desde que entrou aqui, bem pequeno. Já deu até aula
para ele em casa”, atesta a mãe, Cristina. “Lamentamos apenas não dispor de
vagas para todos os alunos especiais que nos procuram, nem de tantos
professores capacitados a lidar com esse público quanto deveríamos. Sabemos o
quanto o ensino musical é importante e acarreta em ganhos para qualquer tipo de
aluno, principalmente para esses. Mas chegaremos lá”, aposta a professora.
A gratidão de David se revela sem palavras, no olhar carinhoso e
traquino, como é próprio da sua idade, lançado vez por outra em direção à
mestra. E por vezes ela vem de um silêncio terno, pontuado por esses vários
sentimentos tão valiosos para o crescimento de qualquer criança: do tipo de
pausa que ajuda a pontuar ritmos e construções de melodias - ou que também
ajuda a costurar a música da vida.
Núcleo de Altas Habilidades da Seduc desenvolve talentos
Os irmãos Wesley Nascimento, 18, e Warley Nascimento, 16, são dotados
de habilidades especiais que lhes permitem dominar a arte do desenho com uma
desenvoltura invejável. Eles são dois dos quase 90 alunos superdotados ou com
habilidades especiais atendidos atualmente pelo Núcleo de Altas Habilidades e
Superdotação (Naahs) da Seduc no Pará.
De acordo com a Política Nacional de Educação Especial (1994), são
estudantes portadores de altas habilidades ou superdotados aqueles alunos que
apresentam notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos
seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual geral;
aptidão acadêmica específica; pensamento criativo ou produtivo; capacidade de
liderança; talento especial para artes e capacidade psicomotora.
Criado em 2006, o Naahs já atendeu mais de 900 alunos com habilidades
especiais. Somente no início deste ano letivo 25 alunos já foram encaminhados
e passam por avaliações psicopedagógicas para serem atendidos no espaço, que
é referência nesse tipo de trabalho em toda a região Norte.
Caminhos – Os alunos portadores destas características são identificados
nas escolas da rede pública estadual e encaminhados ao núcleo, que funciona
hoje na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Vilhena Alves, no
bairro de Nazaré, em Belém. "Atualmente, o Naahs conta com dez
profissionais em diversas áreas do conhecimento, aptos a avaliar os
estudantes para identificar neles as altas habilidades", esclarece a
pedagoga Lúcia Matini.
No caso dos irmãos Nascimento, o primeiro a ser atendido pelo Núcleo
foi Warley, que desde pequeno rabiscava desenhos em casa e demonstrava um
grande interesse pela arte. Ao chegar ao Naahs ele foi apresentado às
diferentes técnicas e características de desenhos, de artistas famosos como
Michelangelo e Leonardo Da Vinci. “Comecei a misturar as técnicas e hoje
tenho meu próprio estilo”, conta Warley. O estudante quer agora seguir este
caminho e estudar Design Gráfico para aproveitar seu talento e habilidade
especiais.
Depois de dois anos sendo atendido e também acompanhado pelos
profissionais do Naahs, o irmão Wesley, amante da arte do grafite, hoje já
desenvolve sua própria técnica – que usa métodos surrealistas adquiridos
através das obras de Pablo Picasso. As obras dos dois irmãos estão expostas
na sede do Núcleo. A professora de artes Ana Lobo explica que parte dos
trabalhos dos alunos é propriedade dos próprios autores e a outra parte é
comercializada. Isso ajuda o Núcleo a adquirir material necessário para as aulas,
como telas, tintas, pincéis. “É uma forma de autossustentabilidade”, diz.
Produção independente – Aluno do sexto ano da Escola
Estadual Almirante Guillobel, Tiago Quaresma Macedo, 11 anos, cria as
próprias histórias em quadrinhos. “Sempre gostei de ler livros de ciência e
de língua portuguesa, e aqui estou, expressando o que quero através dos
quadrinhos”. Atualmente Tiago está criando a história de um gato que se olha
no espelho e pergunta se existem outros animais que sejam tão ou mais belos
que ele. “Meus pais sempre me incentivaram a estudar e fazer o que eu gosto.
Aqui estou, fazendo exatamente isso”, comenta.
Hoje acadêmico do curso de Sistemas de Informação da Universidade
Federal do Pará (UFPA), Gabriel Carvalho de Sá, 19 anos, foi um dos estudantes
da rede estadual que passaram pelo Núcleo de Altas Habilidades da Seduc. Na
época, Gabriel tinha características de Transtorno do Déficit de Atenção com
Hiperatividade. Desde criança, montava e desmontava aparelhos eletrônicos com
uma facilidade enorme. Isso o levou a ser encaminhado para o núcleo.
“Ser atendido aqui me fez ser a pessoa que sou hoje. Aprendi a lidar
com meus problemas pessoais e desenvolver atitudes positivas. Inicialmente eu
me sentia incompreendido e respondia a isso de forma muito agressiva”, conta.
Mesmo não sendo mais atendido pelo Naahs, Gabriel continua frequentando o
espaço: dá sua colaboração com a manutenção dos equipamentos do Núcleo.
Resultado de uma parceria firmada entre Seduc e Governo Federal, o
Naahs é hoje a principal referência em orientação e acompanhamento de
estudantes superdotados da rede pública estadual. Com a ajuda de uma equipe
multiprofissional, que conta com psicólogos e professores, o espaço atende
alunos da Região Metropolitana de Belém.
Serviço: A Coordenação de Educação Especial da Seduc funciona na Avenida
Almirante Barroso, 1.765, entre as travessas Barão do Triunfo e Angustura. O
Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação (Naahs) funciona na
Escola Estadual Vilhena Alves, na Avenida Magalhães Barata, 698, em São Brás,
Belém. Mais informações pelos telefones (91) 98814-1304 e
98810-6003 e pelo e-mail naahsbelempa@gmail.com.
(Colaborou Márcio Flexa, da Ascom Seduc)
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